Relatório Sombra 2024 | O Estado se consolida como o principal agressor da imprensa na América Latina

Oct 1, 2025

América Latina, 1º de outubro de 2025 (Rede Voces del Sur).— Em 2024, a violência contra a imprensa na América Latina somou 3.766 agressões, documentadas em 17 países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Em 49,3% dos casos registrados, atores estatais foram os principais responsáveis, segundo revela a sétima edição do Relatório Sombra sobre a liberdade de imprensa na América Latina.

Embora o número total de alertas tenha diminuído ligeiramente em relação a 2023, o novo relatório adverte que isso não reflete uma melhoria, mas sim um «reacomodamento das agressões» e a consolidação da autocensura, dos desertos informativos e do exílio forçado de jornalistas.

O Relatório Sombra 2024, elaborado pela Red Voces del Sur (VDS), evidencia um cenário de risco extremo onde a repressão estatal, o crime organizado e a impunidade sistêmica ameaçam o direito à informação, enfraquecendo a democracia na região.

Voces del Sur é uma rede formada por 17 organizações da sociedade civil que trabalham para promover e defender a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e o acesso à informação em toda a América Latina.

A Rede VDS nasceu em 2017 com o objetivo de projetar uma metodologia compartilhada para o Indicador 16.10.1 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, a fim de monitorar as violações das liberdades e direitos informativos, contrariando as informações oficiais dos Estados.

Principais descobertas do Relatório Sombra 2024:

• Violência letal e extrema em ascensão: 14 jornalistas foram assassinados na região, o que equivale a uma morte a cada 26 dias. Honduras, México e Colômbia continuam sendo os territórios mais letais. Além disso, os casos de tortura triplicaram, passando de 4 em 2023 para 12 em 2024. Também foram registrados 4 desaparecimentos forçados e 8 sequestros. A impunidade diante desses crimes continua sendo a norma, o que fomenta a repetição da violência.

• O Estado, um agressor sistemático: os atores estatais foram responsáveis por quase metade de todas as violações registradas (1.681 alertas). As forças policiais e de segurança perpetraram uma em cada três «agressões e ataques», a categoria mais frequente com 1.562 casos. Presidentes como Javier Milei (Argentina), Nicolás Maduro (Venezuela) e Nayib Bukele (El Salvador) destacaram-se como os principais agressores individuais na região.

• Discurso estigmatizante como arma: com 756 registros, foi a segunda forma de violência mais comum (20,1% do total), dobrando sua frequência desde 2020. Mais da metade desses discursos veio de atores estatais, que usaram a retórica para desacreditar a imprensa, legitimar a hostilidade e criar um ambiente permissivo para ataques físicos.

• Judicializar para censurar: o uso do sistema judicial para intimidar jornalistas continuou a aumentar, com 217 processos civis e criminais documentados, um aumento sustentado nos últimos anos. Colômbia, Brasil e Chile foram os países com maior número de casos, onde 61,1% dos processos foram iniciados por atores estatais.

• Crime organizado, uma ameaça crescente: a violência de grupos criminosos intensificou-se, com 170 agressões, triplicando sua incidência desde 2021. O assalto armado ao vivo ao canal TC Televisión no Equador foi um caso emblemático que evidenciou o poder desses grupos para silenciar a imprensa.

• Violência diferenciada: foram registradas 142 alertas de violência baseada em sexo ou orientação sexual, afetando de forma desproporcional mulheres jornalistas, comunicadoras indígenas e jornalistas LGBTIQ+. Esses ataques, muitas vezes com conteúdo misógino e sexista, buscam silenciar a cobertura sobre direitos humanos, corrupção e gênero.

• Aumento dos desertos informativos: o relatório também destaca o aprofundamento da censura e dos «desertos de notícias» em regimes autoritários como Cuba, Nicarágua e Venezuela, onde a repressão forçou centenas de jornalistas ao exílio e deixou comunidades inteiras sem acesso a informações independentes.

Para acessar o relatório completo e os dados por país, consulte o relatório completo.