Relatório Sombra 2025 | Aumenta a violência letal, com 23 jornalistas assassinados na América Latina

Sep 15, 2026 | 0 Comentarios

América Latina, 15 de setembro de 2026.— Na terça-feira, 12 de maio de 2026, a Red Voces del Sur (Red VDS) publicou a versão em espanhol do seu Relatório Sombra 2025, seu oitavo relatório anual sobre a situação da liberdade de imprensa na América Latina e no Caribe. Hoje, a Red VDS publica o relatório em português. “Cartografia do silêncio” revela um panorama crítico para o exercício do jornalismo na região, com 2.484 alertas que afetaram 3.230 vítimas em 17 países.

As principais constatações incluem agressões físicas, verbais e digitais, com um aumento significativo do discurso estigmatizante, restrições ao acesso à informação e perseguição judicial contra meios de comunicação e jornalistas, entre outras formas de ataques diretos e indiretos. Os países com maior número de alertas registrados foram Colômbia (468), México (400), Argentina (278) e El Salvador (205).

Embora os alertas tenham diminuído em relação a 2024 em países com regimes autoritários, como Venezuela, Cuba e Nicarágua, isso não reflete uma melhora no contexto para o exercício da liberdade de imprensa, mas sim um aumento da manutenção da violência, da autocensura e do exílio de meios de comunicação, jornalistas e profissionais da imprensa.

Um aumento alarmante na letalidade

A constatação mais devastadora do relatório é o recrudescimento da violência letal: 23 jornalistas foram assassinados em 2025, o que representa um aumento de 9 casos em relação ao ano anterior. Isso equivale à morte de um profissional da mídia a cada 16 dias na região.

O México se confirmou como o país mais perigoso para o exercício do jornalismo, com 7 assassinatos, seguido por números sem precedentes no Equador (5) e no Peru (4). A maioria das vítimas investigava temas relacionados à corrupção ou ao crime organizado e, em muitos casos, já contava com medidas de proteção do Estado que se revelaram ineficazes.

O Estado continua sendo o principal agressor

O relatório confirma que a maior ameaça à imprensa vem daqueles que deveriam garantir sua segurança: os atores estatais foram responsáveis por 50,5% das agressões registradas pela Red VDS. Em países como Cuba, Venezuela, Honduras, Uruguai, Peru, Argentina e Equador, o Estado foi responsável por mais de 50% dos casos relatados.

Uma análise aprofundada revela que os métodos estatais de repressão contra a imprensa se diversificaram:

  • Discurso estigmatizante: foram registrados 547 alertas desse tipo; 59% foram proferidos por autoridades e atores políticos. A Argentina liderou essa categoria (139 casos), impulsionada principalmente pela narrativa oficial do Executivo contra a imprensa.
  • Perseguição judicial: o relatório documenta 190 alertas, com um aumento alarmante no México (200% a mais do que em 2024), onde o sistema jurídico é utilizado como ferramenta de desgaste e censura.
  • Restrições ao acesso à informação: um total de 279 alertas esteve relacionado a obstáculos burocráticos para acessar informações de interesse público e à exclusão de jornalistas e meios de comunicação de espaços oficiais. México, Colômbia e Argentina lideraram esse tipo de agressão.

Aumentam a violência digital e as zonas de silêncio

A violência digital se consolidou como um eixo central do assédio contra a imprensa na América Latina e no Caribe. Países como El Salvador (65,8%), Nicarágua (58,7%) e Chile (45,6%) concentraram a maioria dos ataques desse tipo. Essas táticas incluem vigilância, invasões cibernéticas e campanhas coordenadas de difamação.

O relatório também alerta para a expansão das chamadas zonas de silêncio, territórios onde o jornalismo independente desapareceu devido ao exílio e à autocensura. Em 2025, foram registrados 31 casos de deslocamento forçado, com a Colômbia (22) à frente, devido ao aumento da violência paraestatal que obriga jornalistas a abandonar suas comunidades para salvar suas vidas.

Violência diferenciada contra jornalistas mulheres

O relatório documentou um total de 142 alertas transversais baseados no sexo, um indicador que não acrescenta uma agressão adicional à contagem geral, mas identifica um componente de violência diferenciada em incidentes já registrados.

Esse indicador é acionado diante de agressões que incluem questionamentos à capacidade profissional por motivos do sexo, comentários misóginos, violência sexual ou ataques relacionados a reportagens sobre direitos das mulheres. O objetivo principal dessas formas de violência é desacreditar as jornalistas e expulsá-las do debate público, por meio de ataques que visam sua vida privada, aparência física ou integridade moral.

Em nível regional, a violência digital se consolidou como o principal campo de assédio para este indicador: no México, por exemplo, 80,6% desses alertas ocorreram no ambiente virtual. As constatações mais graves concentraram-se em países como o Brasil, com 31 registros marcados por insultos misóginos nas redes sociais, e El Salvador, onde foram identificados 6 casos de violência sexual contra jornalistas, o número mais alarmante do monitoramento.

Recomendações urgentes

Diante dessa deterioração do contexto para o exercício efetivo e seguro da liberdade de imprensa, Red Voces del Sur insta os governos da região a:

  1. Transformar os mecanismos de proteção em ferramentas com capacidade operacional e orçamento reais.
  2. Cessar imediatamente os discursos estigmatizantes por parte dos chefes de Estado e dos porta-vozes oficiais.
  3. Promover investigações independentes para romper o ciclo de impunidade que envolve os assassinatos de jornalistas.
  4. Garantir o acesso efetivo à informação pública como pilar do Estado de Direito.

A Red Voces del Sur é uma coalizão regional de 17 organizações da sociedade civil que, desde 2017, promove a defesa da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e do acesso à informação na América Latina e no Caribe, com uma metodologia comum alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16.10 da ONU.

Baixe o Relatório Sombra 2025 completo AQUI.